Entrevista: Nuno Alvim, Presidente da Associação Vegetariana Portuguesa (AVP)

Nuno AlvimTem 26 anos, é natural de Braga e estudou no Porto. Atualmente, reside em Lisboa, e representa a principal associação responsável pela promoção do vegetarianismo em Portugal. Assume que nem sempre foi uma pessoa de causas. O despertar para o mundo do ativismo aconteceu após o ingresso na Universidade. Começou a ter uma visão diferente sobre certas temáticas e fez voluntariado num projeto ligado aos sem abrigos, mas depressa sentiu que podia fazer a diferença na causa animal. Foi então que se ligou a algumas associações e grupos mais focados nesta questão, e passou de vegetariano a vegan. Para além de lutar pelos direitos dos animais, também defende que a dignidade da vida humana é fundamental. Formado em Criminologia, durante o seu estágio, desenvolveu programas de reabilitação para prisioneiros e trabalhou com vários parceiros europeus, no sentido de melhorar os sistemas prisionais. Defende que a única pena a que deve ser sujeito quem comete um crime é a privação de liberdade. Acredita que as pessoas não devem ser privadas da dignidade ou da possibilidade de aprenderem e de se reabilitarem. Através de um discurso seguro e eloquente, revela fortes valores e convicções. O seu percurso é inspirador e, demonstra verdadeiramente que, quando se acredita em algo, podemos fazer a diferença.

 

Sei que o escritor Peter Singer é uma referência para ti. Segundo o autor “Se estamos preparados para tirar a vida de outro ser apenas para satisfazer nosso gosto por um determinado tipo de alimento, então esse ser não é mais do que um meio para o nosso fim.” Em que fase da tua vida, tomaste a decisão consciente de alterar os teus hábitos alimentares?

Tudo começou por questionamento. Pessoas que me rodeavam, colegas e amigos começaram a questionar algumas ideias preconcebidas que eu tinha sobre os animais, algumas questões que nós temos enraizadas na sociedade, como o facto de serem irracionais ou o facto de ser perfeitamente normal e natural nós precisarmos de comer carne. Comecei a questionar essas noções com amigos que me lançaram o desafio de pensar de forma diferente. Na altura, foi uma etapa em que refleti bastante e cheguei à conclusão que, por motivos de saúde, fazia sentido deixar de consumir carne. Ainda não havia uma motriz ética, mas fez-me alterar os meus hábitos. Isto foi em 2010. Posteriormente, comecei a querer aprofundar o assunto e, foi aí, que cheguei ao livro “Animal Liberation” do Peter Singer. Isso foi um marco, sem dúvida, tal como foi certamente para milhares de pessoas. Singer tem o mérito de ter catalisado todo o movimento pelos direitos dos animais, desde a década de 70. Foi a figura mais influente de toda a história do movimento e a mim também me marcou pessoalmente. Comecei a habituar-me a questionar as minhas crenças e preconceitos. Senti que os argumentos que aquele livro apresentava eram incontrovertíveis, ou seja, eu não podia contorná-los, eram objetivos, e não conseguia encontrar uma forma de os rebater. Enquanto pessoa racional, quis alinhar o que sentia em termos de consciência com essa ética de pensamento, e o que aconteceu, foi que senti que o pensamento dele era coerente e fazia sentido. Foi um momento marcante, porque me levou a revolucionar completamente a minha forma de estar. Tornei-me vegan faz seis anos.

 

Neste momento, assumes o cargo de Presidente da AVP. Como surgiu a oportunidade de integrar a associação e como encaras o teu papel?

Quando me tornei vegetariano ainda não era muito ativo em termos cívicos, simplesmente lia livros e comecei a conhecer pessoas. A comida é um elemento fundamental na nossa cultura, acho que, muitas vezes, o convívio gravita em torno da comida, por essa razão, é normal que eu me aproxime de pessoas que pensam ou têm uma forma de estar semelhante no que toca à alimentação, e isso aconteceu-me. Foi aí que expandi e conheci pessoas inspiradoras que me marcaram, e moldaram os meus relacionamentos. Sinto que foi libertador e redefiniu a minha identidade. Mais tarde, comecei a entrar em contacto com pessoas e com grupos. Fiz várias formas de ativismo cívico com grupos no Porto, nomeadamente com o Porto pelos Animais, um grupo que faz ativismo informal e local. Têm uma visão muito coerente, alinhada, e uma abordagem muito positiva. Fizemos uma série de coisas muito interessantes, como o projeto Take Away Love um evento de degustação de comida gratuita. Montámos a estrutura e tínhamos chefs a preparar comida na rua para dar comida às pessoas, era uma forma de elas experimentarem comida vegetariana. Tivemos um feedback impecável. Comecei a fazer ativismo com este grupo e a AVP apareceu pelo meio do cenário.
Nesta altura, estabeleci contactos com Lisboa, e comecei a deslocar-me com alguma frequência. Conheci várias pessoas, entre elas o antigo Presidente da AVP. Eu queria ser mais ativo, e ele convidou-me a integrar a AVP. Eu aceitei. Isto foi há algures no início de 2015, e como ainda estava a viver no Porto, dinamizei uma série de atividades, nomeadamente a criação de um núcleo da AVP no Porto. Não tínhamos sede local, mas fazíamos uma série de atividades, nomeadamente com o Porto pelos Animais, e também com o Partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN), que estava a emergir no Porto. Enquanto membro da associação sinto que temos um papel importante em promover este estilo de vida mais saúdável. Também é uma forma de alargar o meu espetro de intervenção, porque em determinado ponto, senti que não queria que isto fosse só sobre mim, queria ir mais além. Optei pela AVP porque achei que seria uma forma de ampliar a esfera de influência e ajudar outras pessoas. Tem sido gratificante.

 

Desde o mês passado, que as cantinas e os refeitórios públicas são obrigados a ter como opção um prato vegetariano. De certa forma, foste responsável pelo desencandeamento desta mudança. Conta-nos como tudo aconteceu e como viveste esta vitória.

Na altura, já estava embrenhado nas atividades da AVP e estudava na universidade. Muitas vezes, tinha a frustração de não conseguir aceder a opções vegetarianas nas cantinas, e decidi lançar um movimento para uma petição. Foi um processo interessante e gratificante. Enquanto estudante tinha essa dificuldade, aliás a minha prática habitual era levar comida de casa, e, muitas vezes, comê-la fria. Era uma situação algo limitativa e frustrante que me levou a perceber que também existiam pessoas à minha volta com a mesma dificuldade. Achei que podia fazer algum tipo de diferença. Redigi o texto da petição, depois de revê-lo e pensá-lo juntamente com outras pessoas e lancei o texto na plataforma das petições online. Fiquei surpreendido com o feedback e com a reação. Isto foi lançado em fevereiro de 2015, e ao fim de dois ou três meses, já tínhamos conseguido reunir oito ou nove mil assinaturas, o que é considerável. Vi a petição a ganhar chama, cresceu de forma incrível. A única coisa que eu fiz foi partilhar a petição no perfil das redes sociais e em alguns grupos, e isso bastou para ganhar chama. Foi algo importante, posso ter algum mérito em ter lançado a petição, mas o mérito principal foi das pessoas que ajudaram depois a fazê-la crescer. A petição ganhou uma sinergia e começou a ser partilhado em massa, porque as pessoas se identificaram claramente com aquele movimento. Em 2016, já contávamos com mais quinze mil assinaturas. Foi nessa altura, que começámos a ponderar entregá-la no parlamento, porque começámos a ter os primeiros contactos com grupos parlamentares, e também com alguns partidos políticos, nomeadamente o PAN e o Partido Ecologista “Os Verdes” (PEV). Entretanto, tive contacto com o André Silva do PAN que me disse que estava a lançar um projeto-lei semelhante, era uma ideia do programa do partido. Quiseram lançar o projeto-lei em janeiro de 2016 e articularam connosco (AVP) porque naturalmente tomaram conhecimento da petição e acharam que seria fundamental para reforçar a posição deles a nível parlamentar. O timing foi perfeito e houve um espírito colaborador e uma forma de conciliar imediata. Tivemos um papel relevante como outros tiveram, o PAN e PEV já tinham a intenção, mas nunca tinham lançado o projeto-lei porque talvez ainda não tivesse chegado a altura certa, e, de facto, a petição serviu de impulso. Depois em abril de 2016 submetemos a petição ao parlamento, e em junho de 2016, o Bloco de Esquerda e o PEV lançaram um projecto-lei idêntico. Tudo isto, desencandeou um processo no parlamento que é moroso e longo. Articulamos com o PAN e, em outubro, conseguimos finalmente ter uma audição pública com os deputados. Acho que isto foi um momento bastante crítico, e aproveito para dizer que o esforço não foi só meu, tive o apoio do meu colega da AVP, Darchite Kantelal que é nutricionista e que foi absolutamente imprescindível. Ele acompanhou-me na audição pública com os deputados, apresentamos o nosso caso e foi muito produtivo. Havia dúvidas principalmente por parte dos deputados do PS e nós conseguimos esclarecê-los e tranquilizá-los. Aí, percebemos que havia condições para aprovar a lei. O PAN finalmente conseguiu fundir o projeto deles com o do Bloco e do PEV dando origem a um só documento que foi sujeito a discussão parlamentar e aprovado em março deste ano. Foi uma grande vitória, fico feliz pelo papel que tivemos porque a nossa missão é mesmo representar o vegetarianismo e as pessoas que o são. Tivemos pessoas que vieram ao nosso encontro e disseram que estavam extremamente gratos, porque têm filhos na escola que têm de levar lancheira e lidar com situações muito desagradáveis de discriminação. Esta lei representa um passo enorme, e esses relatos foram de facto importantes, mas é importante realçar que o resultado é o trabalho conjunto de várias entidades. Para além da AVP, destaco os partidos, sobretudo o PAN que teve um papel muito dinâmico em aprovar a lei, e também uma outra entidade que, muitas vezes, não é referida, e que é a Direção Geral de Saúde (DGS). A DGS publicou três manuais referentes à alimentação vegetariana, são manuais técnicos sobre como fazer uma alimentação de uma forma adequada e nutricionalmente apropriada. Um dos manuais é sobre o planeamento das refeições nas cantinas das escolas e descreve todos os tramites de como é suposto produzir comida, quais são os custos, e chegaram à conclusão de que produzir uma refeição vegetariana fica mais barato do que produzir uma refeição de carne, e que é perfeitamente possível adaptar às cantinas e usar os ingredientes existentes sem ter de recorrer a outros mais exóticos.
Foi de facto importante e crítico porque foi analisado pelos grupos parlamentares e isso influenciou a decisão final.

 

Um pouco por todo o país, mas em particular em Lisboa e no Porto, proliferam novos espaços de restauração vegetarianos e veganos. Achas que esta tendência vai continuar?

Eu acho que é um fenómeno muito estável de crescimento. Cada vez estão a abrir mais cafés, espaços de brunch e restaurantes e existem alguns espaços que já estão bem estabelecidos em Lisboa, como é o caso do Paladar Zen ou dos Tibetanos, mas têm surgido muitos novos. Para mim, não é surpreendente porque eu tenho visto esta tendência. Sobretudo, na última década tem-se notado um crescimento substancial. Acho que também se nota ao nível dos supermercados das grandes superfícies, como é o caso do Jumbo, Pingo Doce, entre outros, onde as secções de produtos vegetarianos ampliaram de uma forma considerável. Falo com outras pessoas que eram vegetarianas em 2000, e que me dizem que era complicadíssimo arranjar produtos, mas atualmente, em qualquer supermercado se encontra uma grande diversidade e isso é um indicador de mercado. Embora não tenhamos estatísticas fiáveis, a última é de 2007, e existiam trinta mil vegetarianos em Portugal. Já passaram dez anos e estou convencido que esse número triplicou ou mais. Isto porque os próprios restaurantes e espaços são um reflexo do mercado, acho que não há melhor indicador de crescimento do que o próprio mercado e a lei da oferta e da procura. Essa dinâmica revela que, de facto, o crescimento existe e há uma tendência estável.

A AVP realiza regularmente campanhas de sensibilização e divulgação junto de várias universidades e estabelecimentos de ensino. Quais são as reações dos jovens perante as vossas iniciativas?

Uma das campanhas mais ativas que temos tido para além da petição tem sido o contacto com as comunidades estudantis nos espaços universitários. Apostamos muito forte numa campanha de distribuição de informação. Temos brochuras que criámos de raiz. Fizemos a primeira edição há dois anos correu bem (quinze mil exemplares). Voltamos a fazer uma segunda edição, desta vez, ainda com mais exemplares. Procurámos que os conteúdos fossem os mais completos possíveis, abordamos desde a questão histórica do vegetarianismo, a personalidades com citações, falamos da questão ética, ambiental e da própria saúde, partimos para a questão mais prática de onde é que podem encontrar opções vegetarianas enquanto consumidores e damos dicas nutricionais. Temos tido feedback positivo. Existem estudantes que, às vezes, nos deixam mensagens a dizer que viram a nossa brochura e acabaram por decidir deixar de comer carne neste dia ou reduzir. Há um efeito, mas agora estamos a apostar mais nas idas às escolas. Queremos fazer palestras e não nos limitarmos só a distribuir informação. Estamos a preparar um conjunto de palestras base e vamos lançar uma campanha de desafio às escolas para nos convidarem.

 

Para terminar, qual a mensagem que gostarias de deixar aos leitores do Vegan Vibe Blog?

Às pessoas que não são vegetarianas, e que se cruzem com esta entrevista, espero que não se sintam amedrontadas pela tarefa que, às vezes, parece titânica de se tornarem veganas, porque não têm de se tornar de um momento para o outro, nem tem de obrigatoriamente de se tornar. Acho que fazer algumas reduções no estilo de vida, na forma de consumo ou moderar, e procurar um modo de consumir diferente já é muito importante. Aí é o nosso papel enquanto consumidores no mercado. Acho que atualmente é o papel mais importante que temos numa economia capitalista, e a forma de fazermos diferença é essa. Às vezes, as pessoas dizem-me que não vou mudar o mundo sozinho, e eu respondo que não quero mudar sozinho, porque estamos num regime democrático e eu só posso votar uma vez. É a mesma coisa com as opiniões, as ideologias e as formas de estar, eu posso votar uma vez enquanto consumidor, represento-me a mim, por definição ninguém pode mudar o mundo sozinho, agora a questão é quando se quer ir um bocadinho mais longe. Sugiro e desafio todas as pessoas que possam ler esta entrevista que o façam, e que não tenham medo de testar e experimentar estas formas de alimentação diferentes, porque de facto, vão ter um papel relevante sobre a questão das alterações climáticas e do impacto sobre o ambiente, vão ter um papel ativo em reduzir a sua própria pegada ecológica e vão contribuir genuinamente para a saúde delas. Acho que é muito nobre que as pessoas queiram fazer pequenas alterações no seu estilo de vida e que tenham consideração pelo bem-estar animal. Faço esse desafio. E, ao mesmo tempo, para as pessoas que já são e que se sentem de alguma forma frustradas porque acham que não fazem o suficiente ou que têm pouco impacto, saiam do vosso espaço de conforto e desafiem-se a fazer mais. Tenham uma iniciativa semelhante à minha. Eu, na altura, também não tinha a perspetiva de que ao criar uma petição aquilo podia dar origem a esta mudança toda, mas deu. Às vezes, começa-se por pequenos atos que parecem irrelevantes e que não vão ter grande eficácia, mas que fazem diferença. Acho que é bom que as pessoas considerem essas hipóteses e se quiserem associar-se à AVP seria ótimo.

Deixar Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *