Entrevista Magda Roma, Nutricionista

Ao longo da sua vida, fez várias alterações na sua dieta alimentar. Atualmente, assume-se como vegetariana estrita, ou seja, não consome produtos de origem animal e respetivos derivados.

Desde cedo soube que queria ajudar pessoas, mas estava longe de imaginar que a sua missão de vida passaria pela área da nutrição. Através do seu trabalho, ajuda quem a procura a melhorar o seu estado de saúde, e em alguns casos, a superar doenças através da prática de uma alimentação saudável. Após uma breve incursão pela área de Engenharia Biotecnológica, acabou por optar pela licenciatura em Nutrição e Engenharia Alimentar. Nessa altura, tinha excesso de peso, mais 25 kg em relação ao seu peso atual. O início do seu percurso profissional foi intenso, para além de dar consultas em várias clínicas, e de trabalhar no Hospital Prisional de Caxias, durante quatro anos também esteve ligada ao setor da indústria alimentar, área que gostou muito pela componente do controlo de qualidade e das certificações.

Mas foi em 2013, que a sua vida mudou completamente. Aceitou um desafio profissional e viajou para Moçambique onde esteve durante oito meses. Foi uma experiência transformadora da qual retirou vários ensinamentos, entre os quais, dar valor ao que realmente tem valor.

Como é que surgiu o interesse pelo mundo da nutrição?

Surgiu porque queria ajudar pessoas. Eu sempre fui ligada a olhar e a cuidar do próximo. Sempre fiz as coisas pelos outros e não por mim, sempre achei que o meu papel na sociedade era ajudar.

Na minha mente, e na da minha família, havia a ideia de que para fazê-lo, eu tinha de ser enfermeira ou médica. Medicina não dava, e não entrei para enfermagem. Fui para nutrição e gostei.

Achas que estás a cumprir a tua missão de vida?

Com este último trabalho sem dúvida. O meu pai teve diagnóstico de cancro em 2008, na altura já era nutricionista e achei que tinha que o ajudar, mas percebi que não fazia ideia como, porque a minha formação não me dava ferramentas. Foi quando comecei a pesquisar, e através de alguns sites da Organização Mundial da Saúde (OMS) fui filtrando informação. Percebi que havia uma quantidade de coisas que podia fazer a nível de alimentação, e eu como nutricionista tinha um papel fundamental no tratamento das doenças oncológicas. O meu pai seguiu o tratamento dele, não fez quimioterapia, não houve necessidade de fazer nada disso. Ele partiu em 2012, teve um acidente, e em 2013, fui-me embora para Moçambique. Entretanto, durante esse tempo todo continuei a estudar a parte de oncologia. Formei-me em Cornell pelo Dr. Campbell.

Em 2014 editaste o teu primeiro livro “A Dieta Anticancro”, que aborda um tema que afeta milhares de portugueses e milhões de pessoas em todo o mundo. Qual foi o impacto que o livro teve na tua vida e na vida dos teus leitores?

Teve um impacto brutal. Primeiro porque eu não sabia se havia alguma editora que me podia publicar, e foi numa situação social a falar com uma pessoa que trabalhava na editora onde o livro foi publicado que ele me disse “Todos os nutricionistas lançam livros, lança também.” Ele queria que eu lançasse um livro sobre uma dieta qualquer, que estava na moda os nutricionistas lançarem, mas expliquei-lhe que para eu avançar tinha que ser sobre o cancro. Em dois meses, o livro foi publicado, tempo suficiente para reunir todo o material de anos de pesquisa. Jamais pensei que chegasse à 4ª edição que está praticamente esgotada. Chegou a muita gente, e felizmente já conseguiu mudar a vida de algumas pessoas. Essa é a minha missão, realmente abrir a consciência das pessoas para esta temática, porque nós alimentamo-nos de manhã à noite. Aquilo que nós comemos pode ser delicioso e pode ser altamente prejudicial. A OMS já alertou com vários comunicados, mas em Portugal a informação foi desprezada e até motivo de chacota. Somos um país com muitas raízes alimentares: o leite, os queijos, os iogurtes, a charcutaria, carnes de porco. Eu percebo isso e aceito que faz parte da nossa cultura, mas também temos que medir as consequências dos nossos atos na nossa saúde.

E o terceiro livro, que saiu em 2016 intitula-se “O Livro das Receitas Vegan”. Sentes que conseguiste cumprir o teu objetivo de desmistificar o mundo da alimentação Vegan?

Sim, existem muitos mitos à volta da alimentação vegetariana e que a carne é que tem a proteína toda que os outros alimentos não têm. A B12 por exemplo, é de origem animal, é verdade…mas eu tenho mais casos com pessoas com défice de vitamina B12 omnívoras do que vegetarianas, portanto isso está relacionado com a absorção intestinal… Há muitas coisas à volta da alimentação vegetariana.

A questão da B12 pode ser ultrapassada através de suplementação ou de então alimentos enriquecidos com B12. “O Livro das Receitas Vegan” tem mais de 100 receitas totalmente isentas de produtos de origem animal e também sem açúcar refinado, portanto usamos o agave ou o próprio açúcar da fruta neste caso da banana ou das tâmaras. Fiz o livro com a Mónica Venda com quem faço os cursos e os workshops de cozinha natural vegetariana. Foi minha paciente e encontrou no veganismo o tratamento para um problema de saúde grave que ela tinha. Hoje somos o braço direito uma da outra, e já fazemos este trabalho há dois anos. É um trabalho muito bonito. O livro saiu e felizmente, já se encontra na segunda edição. É uma boa ferramenta para desmistificar e para esclarecer qualquer dúvida relativamente à alimentação, onde é que estão os nutrientes, onde é que estão as tais proteínas que supostamente só a carne é que tem.

Podes falar um pouco sobre a temática do teu novo livro?

Chama-se “O que faz bem e o que faz mal”, e vai no seguimento do primeiro livro, mas também vamos falar das doenças cardiovasculares, diabetes, osteoporose, enfim, a relação que os alimentos têm com as doenças, sempre suportado por estudos científicos. Existe a confirmação científica e eu uso-a para ajudar os leitores, quem me segue e os meus próprios pacientes, a ficarem cada vez mais esclarecidos sobre a relação das doenças com a alimentação.

Este livro é focado na saúde de uma forma integral e passa muito pelo cancro, que é a minha paixão.

Também tem um conjunto de receitas, mas as receitas estão organizadas de forma diferente. Por exemplo, tenho 10 pequenos-almoços diferentes e a pessoa pode pegar no pequeno-almoço nº2 e sabe que está completamente equilibrado e que nada lhe vai faltar a nível nutricional. Depois a parte de refeições, e também existem sobremesas, tem que haver sempre sobremesas, pois a vida não é uma dieta.

Além disso, exploro alguns dos regimes alimentares mais famosos, como a paleo, dieta do sangue e outros. Quem os idealizou, em que consistem, e a minha opinião sobre os mesmos. Não sou extremista, acredito que as pessoas devem seguir as suas convicções e o que lhes faz mais sentido, mas para isso é preciso aumentar o conhecimento do leitor para então, de forma consciente, fazer as suas escolhas. Também tem um capítulo dedicado ao equilíbrio do prato, como o devemos compor e o que nunca devemos esquecer nas refeições.

Para além das consultas de nutrição também dás cursos e workshops, já falaste há pouco da tua parceria… Como é que vives esses momentos de partilha, e o que é que significam para ti?

Então acaba por ser o culminar de tudo, não é? Num consultório muda-se o comportamento de vida da pessoa. Se a pessoa estiver disposta a aceitar esse desafio vem o: “Como é que eu faço?” E os cursos e os workshops servem mesmo para isso: ensinar na prática aquilo que eu na teoria escrevo no plano alimentar. E então acaba por ser… a cereja no topo do bolo.

Pareces ser uma pessoa feliz. Ser feliz para ti é?

Respeito pelas nossas vontades, ideais, necessidades e decisões, sejam elas boas ou más se as respeitámos foi porque fazia sentido naquele momento.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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